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Dermatofitose e dermatofilose em bovinos leiteiros: diferenças, sintomas e tratamento

Bezerra leiteira com dermatofitose

As doenças dermatológicas em bovinos leiteiros são observadas com frequência na prática clínica e no manejo sanitário das propriedades, especialmente em sistemas com alta densidade animal, presença de umidade e manejo intensivo de vacas e bezerras.

Entre essas enfermidades, destacam-se a dermatofitose e a dermatofilose, duas afecções cutâneas amplamente distribuídas, que acometem animais de diferentes idades e podem gerar impactos relevantes no bem-estar, na produtividade e no valor zootécnico do rebanho.

Apesar de ambas se manifestarem como dermatites alopécicas e crostosas, essas doenças apresentam origens distintas, mecanismos de infecção próprios e padrões epidemiológicos específicos, o que torna essencial o correto reconhecimento clínico e sanitário.

Ao longo deste artigo, serão abordados os principais aspectos da dermatofitose e da dermatofilose em bovinos, incluindo conceito, agente etiológico, epidemiologia, patogênese e sinais clínicos, com ênfase nos pontos que auxiliam na diferenciação prática entre essas enfermidades.

 

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O que é dermatofitose em bovinos?

A dermatofitose é uma enfermidade cutânea de origem fúngica, caracterizada pela invasão dos tecidos queratinizados da pele e dos pelos por fungos dermatófitos. Em bovinos, trata-se de uma das dermatopatias mais frequentes, especialmente em bezerras leiteiras, devido à maior suscetibilidade dos animais jovens e às condições de manejo que favorecem sua disseminação.

Qual fungo causa dermatofitose em bovinos?

Os agentes causadores da dermatofitose pertencem principalmente aos gêneros Trichophyton e Microsporum, sendo o Trichophyton verrucosum o dermatófito mais comumente isolado em bovinos. Outras espécies, como T. mentagrophytes e Microsporum gypseum, podem ser encontradas com menor frequência.

Os dermatófitos são fungos queratinofílicos, ou seja, apresentam afinidade pela queratina presente no estrato córneo da pele, nos pelos e em seus anexos. A infecção se restringe, em geral, às camadas superficiais da pele, não ocorrendo invasão profunda em animais imunocompetentes.

A forma infectante é o artrósporo, que se origina da fragmentação das hifas fúngicas e apresenta elevada resistência no ambiente, permanecendo viável por longos períodos, especialmente em condições secas e de baixa temperatura.

Como ocorre a transmissão?

A dermatofitose ocorre em todas as regiões do mundo e pode acometer diferentes espécies animais, incluindo o homem, o que confere à doença importante caráter zoonótico. Em bovinos, a enfermidade é mais frequentemente observada em sistemas de criação com alta densidade animal e manejo coletivo, como bezerreiros e instalações de recria.

A principal via de transmissão é o contato direto entre animais, porém a disseminação indireta por meio de fômites contaminados desempenha papel fundamental na manutenção da infecção nos rebanhos. Estima-se que uma parcela significativa dos animais clinicamente sadios em um grupo infectado possa atuar como portadores assintomáticos, contribuindo para a perpetuação da doença no ambiente.

A umidade elevada, associada a temperaturas amenas, favorece a multiplicação dos fungos, enquanto fatores relacionados ao hospedeiro, como idade jovem, imunidade ainda imatura, estresse, deficiências nutricionais e microtraumas cutâneos, aumentam a suscetibilidade à infecção.

Por esse motivo, bezerras leiteiras são frequentemente mais acometidas do que bovinos adultos, nos quais há maior probabilidade de desenvolvimento de imunidade após infecções prévias.

Após a deposição dos artrosporos na pele, especialmente em áreas submetidas a microlesões, ocorre a adesão do fungo aos queratinócitos, seguida da germinação e invasão do estrato córneo e dos folículos pilosos. Os dermatófitos produzem enzimas proteolíticas, como queratinases, que permitem a digestão da queratina e a progressão da infecção.

Dermatofitose em bezerras leiteiras

Dermatofitose em bezerras leiteiras. Fonte: Bruna Maeda.

Sintomas da dermatofitose em bovinos

Como consequência da infecção superficial dos tecidos queratinizados, a dermatofitose em bovinos manifesta-se predominantemente por alterações cutâneas bem delimitadas, sem repercussões sistêmicas relevantes. O padrão das lesões reflete o crescimento centrífugo do fungo na pele, devido à tentativa do microrganismo aeróbio “fugir” da parte muito inflamada da lesão (centro).

Clinicamente, observam-se áreas circulares ou ovaladas de alopecia, recobertas por crostas secas, espessas e de coloração branco-acinzentada, que podem se desprender ao longo da evolução, deixando a pele descamativa. Esse aspecto em “anel” é considerado típico da dermatofitose bovina e auxilia no reconhecimento inicial da doença.

As lesões localizam-se com maior frequência na cabeça, ao redor dos olhos, focinho, orelhas e pescoço, podendo atingir o tronco em casos mais extensos, especialmente em bezerras leiteiras mantidas em ambientes coletivos. Em animais jovens, múltiplas lesões podem ocorrer simultaneamente e, ocasionalmente, coalescer.

De modo geral, não há prurido significativo nem dor associada, e o estado geral dos animais permanece preservado. A dermatofitose é considerada uma enfermidade autolimitante, com regressão espontânea ao longo de semanas ou meses, à medida que a resposta imune se estabelece. Ainda assim, durante esse período, os animais podem atuar como fonte de contaminação ambiental, o que favorece a manutenção da infecção no rebanho.

Guia Tipos de instalações para bezerras leiteiras

O que é dermatofilose em bovinos?

A dermatofilose é uma enfermidade cutânea de origem bacteriana, caracterizada por dermatite exsudativa e crostosa, que acomete bovinos de diferentes idades, com maior frequência em regiões de clima quente e úmido.

Trata-se de uma doença oportunista, cuja ocorrência está fortemente associada a fatores ambientais e de manejo que comprometem a integridade da pele.

Qual bactéria causa dermatofilose em bovinos?

O agente etiológico da dermatofilose é Dermatophilus congolensis, uma bactéria Gram-positiva pertencente ao grupo dos actinomicetos. Esse microrganismo apresenta características peculiares, como a formação de filamentos ramificados que se fragmentam em unidades cocóides, organizadas em cadeias paralelas, conferindo ao agente um aspecto típico em “trilhos de trem” ao exame microscópico (Santos; Alessi, 2016).

O D. congolensis pode permanecer viável na pele e no ambiente por períodos prolongados, especialmente em condições de umidade elevada, sem necessariamente causar doença. A infecção ocorre quando há ruptura da barreira cutânea, permitindo a penetração do agente nas camadas superficiais da epiderme.

Como ocorre a transmissão da dermatofilose?

A dermatofilose apresenta distribuição mundial, com maior prevalência em áreas tropicais e subtropicais, onde a combinação de chuvas frequentes, umidade persistente e temperaturas elevadas favorece a sobrevivência e multiplicação do agente. Em bovinos leiteiros, surtos são frequentemente observados durante períodos chuvosos.

Sendo assim, dos principais fatores predisponentes destacam-se a umidade prolongada da pele, a presença de ectoparasitas, microtraumatismos cutâneos, manejo inadequado e condições sanitárias deficientes. Animais submetidos a estresse, desnutrição ou doenças concomitantes também apresentam maior suscetibilidade à infecção.

Embora a transmissão direta entre animais possa ocorrer, a dermatofilose não é considerada altamente contagiosa. O desenvolvimento da doença depende, sobretudo, da interação entre o agente e os fatores ambientais e do hospedeiro, o que explica a ocorrência de surtos associados a condições climáticas específicas.

Após a penetração do D. congolensis por áreas lesionadas da pele, ocorre a multiplicação bacteriana nas camadas superficiais da epiderme, com indução de resposta inflamatória local. A exsudação resultante favorece a formação de crostas espessas e aderidas, que representam uma característica marcante da dermatofilose bovina.

Lesões de dermatofilose em bovinos leiteiros

Dermatofilose em bovinos leiteiros. Fonte: Acervo Rehagro.

Sintomas da dermatofilose em bovinos

As manifestações clínicas da dermatofilose refletem a multiplicação de Dermatophilus congolensis nas camadas superficiais da epiderme, associada à resposta inflamatória local desencadeada após a ruptura da barreira cutânea. Diferentemente da dermatofitose, trata-se de uma enfermidade mais inflamatória e frequentemente dolorosa, com maior produção de exsudato.

Clinicamente, observa-se o surgimento de lesões exsudativas recobertas por crostas espessas, aderidas e de coloração acastanhada, que, ao serem removidas, deixam uma superfície úmida, avermelhada e sensível. Um achado característico é a formação de crostas com aspecto em “pincel” ou “escova”, resultante da aglutinação dos pelos pelo exsudato inflamatório, sinal considerado bastante sugestivo de dermatofilose bovina.

As lesões ocorrem com maior frequência no dorso, garupa, pescoço e membros, regiões mais expostas à umidade, à chuva e a traumatismos. A evolução clínica está diretamente relacionada à manutenção desses fatores ambientais favoráveis.

Diferentemente da dermatofitose, a dermatofilose costuma estar associada a dor à palpação e, em alguns casos, a discreto prurido. O estado geral pode ser comprometido em quadros mais extensos ou crônicos, especialmente quando há infecções secundárias ou condições predisponentes persistentes.

Lesões de dermatofilose em bezerras

Fonte: Revista Leite Integral. 

Dermatofitose × dermatofilose: comparação dos sinais clínicos

Comparação clínica entre dermatofitose e dermatofilose

Como é feito o diagnóstico dessas doenças de pele?

O diagnóstico dessas enfrmidades em bovinos leiteiros é, na maioria das situações, predominantemente clínico, baseado na avaliação das lesões, na distribuição corporal, no histórico de manejo e nos fatores ambientais associados.

Embora nem sempre indispensáveis, exames laboratoriais complementares podem ser utilizados nos casos duvidosos ou para confirmação.

Como tratar e prevenir a dermatofitose e a dermatofilose em bovinos?

A dermatofitose é, na maioria dos casos, uma enfermidade autolimitante, especialmente em animais jovens, podendo regredir espontaneamente com o desenvolvimento da resposta imune. Quando necessário, o tratamento pode ser realizado de forma tópica, com produtos antifúngicos aplicados diretamente sobre as lesões, visando reduzir a carga fúngica e limitar a disseminação dos esporos no ambiente.

Já na dermatofilose, a remoção cuidadosa das crostas e a limpeza das áreas afetadas também são bem vindas. O controle de ectoparasitas e a correção de falhas de manejo são medidas essenciais para evitar recidivas.

Em ambas as enfermidades, o tratamento pode ser feito com zinco, a fim de melhorar a imunidade da pele acometida, Além disso, a prevenção baseia-se na redução da exposição a fatores de risco, no manejo adequado das instalações e na observação frequente dos animais, especialmente bezerras leiteiras. O diagnóstico precoce e a intervenção rápida contribuem para reduzir a extensão das lesões e o impacto sanitário no rebanho.

Conclusão

A dermatofitose e a dermatofilose são enfermidades cutâneas frequentes em bovinos leiteiros, especialmente em bezerras, e embora possam apresentar manifestações clínicas aparentemente semelhantes, diferem de forma significativa quanto ao agente etiológico, patogênese, fatores predisponentes e evolução clínica. O reconhecimento dessas diferenças é fundamental para evitar erros diagnósticos e condutas inadequadas no manejo sanitário do rebanho.

Enquanto a dermatofitose se caracteriza como uma infecção fúngica superficial, pouco inflamatória e geralmente autolimitante, a dermatofilose corresponde a uma dermatite bacteriana oportunista, fortemente associada à umidade, a traumatismos cutâneos e a condições ambientais desfavoráveis. Essas particularidades explicam não apenas o aspecto distinto das lesões, mas também o comportamento epidemiológico e a resposta clínica observada em cada enfermidade.

Dessa forma, compreender as características clínicas e epidemiológicas da dermatofitose e da dermatofilose permite ao médico-veterinário atuar de maneira mais assertiva na sanidade de vacas e bezerras leiteiras, contribuindo para a redução de perdas produtivas, a melhoria do bem-estar animal e a adoção de práticas sanitárias mais eficientes e sustentáveis nos sistemas de produção.

Perguntas frequentes sobre dermatofitose e dermatofilose em bovinos

1. Qual é a diferença entre dermatofitose e dermatofilose em bovinos?

A dermatofitose é uma infecção fúngica da pele, causada principalmente por Trichophyton verrucosum, que costuma provocar áreas circulares de perda de pelos e crostas esbranquiçadas.

Já a dermatofilose é uma infecção bacteriana causada por Dermatophilus congolensis, frequentemente associada à umidade e caracterizada por crostas aderidas e pelos aglutinados. A confirmação depende de avaliação veterinária e, quando indicado, exames laboratoriais.

2. Quais são os sintomas da dermatofitose em bovinos?

Os principais sintomas são áreas circulares ou ovaladas sem pelos, descamação e crostas de coloração branco-acinzentada. As lesões aparecem frequentemente na cabeça, ao redor dos olhos e no pescoço, especialmente em bezerros. A coceira pode ser ausente ou variável.

3. Quais são os sintomas da dermatofilose bovina?

A dermatofilose provoca lesões crostosas, com pelos aglutinados em tufos semelhantes a pincéis, além de inflamação e, em alguns casos, dor. As lesões podem ocorrer no dorso, pescoço, membros e outras regiões. Casos extensos podem comprometer o bem-estar do animal.

4. Como ocorre a transmissão da dermatofitose em bovinos?

A dermatofitose pode ser transmitida pelo contato direto com animais infectados ou indiretamente por equipamentos, instalações e outros materiais contaminados com esporos dos fungos. A concentração de animais e o compartilhamento de materiais favorecem sua disseminação.

5. Como é feito o diagnóstico da dermatofitose e da dermatofilose?

O médico-veterinário avalia o aspecto e a distribuição das lesões, o histórico dos animais e as condições de manejo. Quando necessário, a dermatofitose pode ser confirmada por exames micológicos, enquanto a dermatofilose pode ser investigada pela citologia de crostas e outros exames laboratoriais.

6. Dermatofitose e dermatofilose podem ser transmitidas para humanos?

Sim. A dermatofitose bovina é uma zoonose e pode ser transmitida às pessoas pelo contato com animais ou materiais contaminados. A dermatofilose também possui potencial zoonótico, embora os casos humanos sejam raros.

Recomenda-se utilizar equipamentos de proteção e higienizar as mãos após o manejo de animais com lesões suspeitas.

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Bruna Maeda - Equipe Leite Rehagro

Referências

  • RADOSTITS, O. M.; GAY, C. C.; HINCHCLIFF, K. W.; CONSTABLE, P. D. Clínica veterinária: um tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007.
  • RIET-CORREA, F.; SCHILD, A. L.; LEMOS, R. A. A.; BORGES, J. R. J. Doenças de ruminantes e equídeos. 3. ed. Santa Maria: Pallotti, 2011. 2 v.
  • SANTOS, R. L.; ALESSI, A. C. Patologia veterinária. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.

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